Sâmara Gomes
Frases como "você precisa ter força de vontade", "você está exagerando" e "é só pensar positivo" costumam ser ditas com boa intenção, mas podem fazer quem tem transtorno bipolar se sentir culpado e incompreendido. Trocar essas frases por perguntas e validação ajuda a acolher sem julgar, e sem precisar concordar com tudo.
Por que a intenção nem sempre basta
Quem convive com uma pessoa com transtorno bipolar quase sempre quer ajudar. O problema é que algumas frases, ditas para incentivar, acabam passando outra mensagem: a de que o sofrimento é escolha, exagero ou falta de esforço.
E as palavras importam. Pesquisas sobre o clima emocional da família mostram que críticas frequentes, hostilidade e envolvimento emocional excessivo se associam a mais recaídas em diferentes condições, incluindo os transtornos do humor. (Butzlaff e Hooley, 1998; meta-análise) Isso não quer dizer que a família cause recaídas. Quer dizer que a forma de conversar faz parte do ambiente em que o tratamento acontece, e que ela pode ser aprendida.
Frase 1: "Você precisa ter força de vontade"
Por que machuca: transtorno bipolar não é falta de esforço. É uma condição de saúde que afeta o humor, a energia e o sono, e que tem tratamento. Quando a dificuldade é tratada como preguiça, a pessoa tende a se sentir ainda mais culpada, o que não ajuda em nada a sair do episódio.
O que dizer no lugar:
- "Eu sei que não é questão de querer. Como posso te ajudar hoje?"
- "Quer que eu vá com você à próxima consulta?"
Frase 2: "Você está exagerando"
Por que machuca: invalidar o sofrimento faz a pessoa se sentir sozinha justamente quando mais precisa de apoio. Mesmo quando a reação parece desproporcional para quem está de fora, o que ela sente é real para ela.
O que dizer no lugar:
- "Eu vejo que está difícil para você."
- "Me conta o que está pesando mais agora."
Validar não significa concordar com tudo. Significa reconhecer que o sofrimento existe, antes de discutir o que fazer.
Frase 3: "É só pensar positivo"
Por que machuca: pensamento positivo não substitui tratamento. Para quem está em um episódio depressivo, por exemplo, a frase pode soar como se bastasse decidir ficar bem, o que aumenta a sensação de fracasso.
O que dizer no lugar:
- "Você não precisa estar bem agora. Eu estou aqui."
- "O que costuma te ajudar quando fica assim?"
Acolher não é concordar com tudo
Compreender o transtorno não significa justificar comportamentos que machucam. A família pode e deve colocar limites. A diferença está em separar o que é sintoma, o que é atitude e o que é necessidade de cuidado, e conversar sobre isso nos momentos mais tranquilos, de preferência com orientação profissional.
A família não precisa ter todas as respostas. Mas pode aprender a acolher sem julgar. E isso tem respaldo: a psicoeducação familiar, que ensina a família a compreender o transtorno e a se comunicar melhor, está entre as intervenções estudadas junto com o tratamento medicamentoso. (Miklowitz et al., 2003; ensaio clínico randomizado)
Psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico: cada um no seu lugar
O tratamento do transtorno bipolar é conduzido pelo psiquiatra, com a psicoterapia caminhando junto. Para a família, a psicoterapia ou a psicoeducação podem ajudar a encontrar palavras, colocar limites saudáveis e cuidar do próprio cansaço.
Perguntas frequentes
O que não dizer para alguém com transtorno bipolar?
Evite frases que tratam o sofrimento como escolha ou exagero, como "você precisa ter força de vontade", "você está exagerando" e "é só pensar positivo".
O que dizer para apoiar?
Frases que validam e oferecem ajuda concreta: "Eu vejo que está difícil", "Como posso te ajudar hoje?", "Quer que eu vá com você à consulta?".
Acolher significa aceitar qualquer comportamento?
Não. É possível acolher o sofrimento e, ao mesmo tempo, colocar limites para atitudes que machucam.
Conteúdo educativo. Não substitui uma avaliação individualizada.
Referências
- Butzlaff RL, Hooley JM. Expressed emotion and psychiatric relapse: a meta-analysis. Arch Gen Psychiatry. 1998;55(6):547-552. doi:10.1001/archpsyc.55.6.547
- Miklowitz DJ, George EL, Richards JA, Simoneau TL, Suddath RL. A randomized study of family-focused psychoeducation and pharmacotherapy in the outpatient management of bipolar disorder. Arch Gen Psychiatry. 2003;60(9):904-912. doi:10.1001/archpsyc.60.9.904
Sobre a autora
Sâmara Gomes é psicóloga clínica (CRP 22/000695), com 18 anos de experiência clínica. Atende em psicoterapia on-line e presencialmente em Bacabal (MA), com foco no transtorno afetivo bipolar, além de ansiedade e depressão.