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Irritabilidade no transtorno bipolar: quando a mudança de humor aparece como irritação
20/10/2026 | Transtorno Bipolar |
Sâmara Gomes
Irritabilidade no transtorno bipolar: quando a mudança de humor aparece como irritação

A irritabilidade pode fazer parte de episódios de humor no transtorno bipolar, tanto de mania e hipomania quanto de depressão. Mas irritação, sozinha, não indica um episódio: cansaço, estresse e ansiedade também deixam qualquer pessoa mais irritável. O que importa é a mudança em relação ao jeito habitual da pessoa, junto com outros sinais.

Por que a irritabilidade costuma passar despercebida?

Quando se fala em transtorno bipolar, muita gente imagina dois extremos: a euforia de um lado e a tristeza profunda do outro. Essa imagem não está errada, mas está incompleta.

Às vezes, a mudança de humor aparece nas pequenas situações do dia a dia. Uma brincadeira começa a parecer provocação. Uma opinião diferente soa como crítica. A preocupação da família é recebida como tentativa de controle. Quem está de fora pode interpretar tudo isso como falta de educação ou como "gênio difícil". E quem está vivendo a mudança, muitas vezes, não percebe que as próprias reações ficaram diferentes.

 

Em quais episódios a irritabilidade pode aparecer?

Na mania e na hipomania. Nos critérios diagnósticos atuais, o humor desses episódios pode ser elevado, expansivo ou irritável. Ou seja: nem toda mania é alegria. Há pessoas em que o que mais se destaca é a irritação, a impaciência e a dificuldade de tolerar frustrações, junto com outras mudanças, como menos necessidade de sono e mais energia. (DSM-5-TR, APA, 2022)

Na depressão. A irritabilidade também é comum nos episódios depressivos. Em crianças e adolescentes, inclusive, o humor da depressão pode aparecer mais como irritação do que como tristeza. (DSM-5-TR, APA, 2022) Em um estudo com 348 pessoas com transtorno bipolar tipo II em episódio depressivo, a irritabilidade esteve presente em cerca de 6 em cada 10. Mas ela também apareceu em quase 4 em cada 10 pessoas com depressão sem transtorno bipolar, o que mostra que a irritação, sozinha, não diferencia um quadro do outro. (Benazzi e Akiskal, 2005; estudo observacional, em um único centro)

Nos estados mistos. Na prática clínica, a irritabilidade é frequente quando sintomas dos dois polos aparecem juntos. Um cuidado: nos critérios do especificador "com características mistas", a irritabilidade não está entre os sintomas listados, justamente porque pode aparecer nos dois polos. É mais uma razão para que a avaliação seja feita por um profissional, olhando o conjunto. (DSM-5-TR, APA, 2022)

 

Nem toda irritabilidade é sinal de um episódio

Este talvez seja o ponto mais importante do texto. Todo mundo fica irritado às vezes. Uma noite mal dormida, uma semana de trabalho pesada, uma preocupação com dinheiro, uma dor física, a ansiedade antes de um compromisso importante: tudo isso pode deixar qualquer pessoa com menos paciência.

Por isso, não é uma reação isolada que define um episódio de humor. O que se observa é:

  • se a irritação é diferente do jeito habitual da pessoa;
  • se veio junto com outras mudanças, como no sono, na energia, na impulsividade e na velocidade dos pensamentos;
  • quanto tempo dura e com que intensidade;
  • que impacto tem no trabalho, nos estudos e nas relações.

A irritabilidade pode ser

A irritabilidade não é

Parte de um episódio de mania, hipomania ou depressão

Prova, sozinha, de transtorno bipolar

Um sinal que a própria pessoa nem sempre percebe

Um traço de caráter ou "falta de educação"

Algo a observar junto com sono, energia e comportamento

Justificativa para atitudes que machucam

 

Por que reconhecer cedo faz diferença?

Mudanças que aparecem antes de um episódio, chamadas de sinais precoces, podem ser aprendidas e acompanhadas. Em um estudo com 69 pessoas com transtorno bipolar, aprender a reconhecer os sinais precoces de uma recaída e buscar ajuda logo aumentou o tempo até um novo episódio de mania e melhorou o funcionamento social e no trabalho. Nesse estudo, o efeito não apareceu para os episódios de depressão. (Perry et al., 1999; ensaio clínico randomizado)

Em outro estudo, com 120 pessoas com transtorno bipolar tipo I e II que estavam estáveis e em tratamento medicamentoso, a psicoeducação em grupo reduziu o número de recaídas e aumentou o tempo até novos episódios, em comparação com encontros sem estrutura. (Colom et al., 2003; ensaio clínico randomizado)

Para quem convive, isso traz uma orientação prática: o melhor momento para conversar sobre esses sinais é na fase de estabilidade, não no meio de uma discussão. Combinar antes, junto com os profissionais que acompanham a pessoa, o que cada um vai observar e o que fazer se algo mudar ajuda a agir cedo, com menos conflito.

 

Psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico: cada um no seu lugar

O diagnóstico do transtorno bipolar é clínico, e a conduta medicamentosa é decidida pelo psiquiatra com o paciente, caso a caso. A psicoterapia caminha junto: ajuda a compreender o transtorno, a reconhecer os próprios sinais, a organizar a rotina e a cuidar das relações. As diretrizes internacionais incluem a psicoeducação entre os recursos do tratamento, sempre ao lado do acompanhamento psiquiátrico. (Yatham et al., CANMAT/ISBD, 2018)

Para a família, a psicoterapia também pode ser um espaço importante. Conviver com mudanças de humor cansa, e compreender o que é sintoma ajuda a separar a pessoa do episódio, sem justificar o que machuca.

 

Perguntas frequentes

Irritabilidade é sintoma de transtorno bipolar?

Pode ser, quando faz parte de um episódio de mania, hipomania ou depressão, junto com outras mudanças. Sozinha, não indica o transtorno.

Como diferenciar irritação comum de um episódio de humor?

Observando se é uma mudança em relação ao jeito habitual da pessoa, se veio com alterações no sono, na energia e no comportamento, quanto dura e que impacto tem. Só uma avaliação profissional pode dizer.

O que fazer se alguém da família está muito irritado?

Evitar confrontos no momento mais intenso, priorizar a segurança e conversar sobre o que observou depois, com calma. Se houver acompanhamento, vale avisar os profissionais. Em risco imediato, procure atendimento de urgência: SAMU, 192.

 

Conteúdo educativo. Não substitui uma avaliação individualizada.

Referências:

  1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA; 2022.
  2. Benazzi F, Akiskal H. Irritable-hostile depression: further validation as a bipolar depressive mixed state. J Affect Disord. 2005;84(2-3):197-207. doi:10.1016/j.jad.2004.07.006
  3. Perry A, Tarrier N, Morriss R, McCarthy E, Limb K. Randomised controlled trial of efficacy of teaching patients with bipolar disorder to identify early symptoms of relapse and obtain treatment. BMJ. 1999;318(7177):149-153. doi:10.1136/bmj.318.7177.149
  4. Colom F, Vieta E, Martinez-Aran A, et al. A randomized trial on the efficacy of group psychoeducation in the prophylaxis of recurrences in bipolar patients whose disease is in remission. Arch Gen Psychiatry. 2003;60(4):402-407. doi:10.1001/archpsyc.60.4.402
  5. Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97-170. doi:10.1111/bdi.12609

 

Sobre a autora

Sâmara Gomes é psicóloga clínica (CRP 22/000695), com 18 anos de experiência clínica. Atende em psicoterapia on-line e presencialmente em Bacabal (MA), com foco no transtorno afetivo bipolar, além de ansiedade e depressão.

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