Sâmara Gomes
Quando um filho tem transtorno bipolar, os pais podem ajudar muito, mas não precisam carregar tudo sozinhos. O caminho passa por três frentes: aproveitar os períodos de estabilidade para conversar e combinar um plano com a equipe que acompanha o filho, saber como agir em uma crise e cuidar também da própria saúde emocional.
Sentir medo não faz de você um pai ou uma mãe ruim
"Meu filho tem transtorno bipolar e eu não sei o que fazer." É uma das frases que eu mais escuto de pais e mães. Ela costuma vir carregada de medo, culpa e cansaço.
Antes de qualquer orientação, vale dizer: não saber o que fazer diante de um diagnóstico como esse é compreensível. É um cenário difícil. Sentir insegurança não significa amar menos nem estar falhando. Significa que você está diante de algo novo, que pede informação e apoio.
O que fazer nos períodos de estabilidade?
A fase de estabilidade é o melhor momento para conversar, porque a comunicação tende a ser mais tranquila do que no meio de um episódio. Algumas atitudes ajudam:
- Conversar com calma e ouvir. Pergunte ao seu filho como ele percebe as próprias mudanças e do que ele precisa quando as coisas ficam difíceis.
- Combinar um plano junto com os profissionais. O que cada um vai observar, a quem avisar e o que fazer se um episódio começar. Um plano feito com antecedência, junto com o psiquiatra e a psicoterapia, ajuda a agir cedo e com menos conflito.
- Conhecer os sinais de alerta daquele filho. Mudanças importantes no sono, na energia, na irritabilidade e no comportamento, principalmente quando são diferentes do habitual, merecem atenção. Cada pessoa tem os seus sinais, e quem melhor ajuda a identificá-los é a equipe que acompanha o caso.
- Apoiar a continuidade do tratamento sem transformar tudo em cobrança. Lembrar de uma consulta ou oferecer companhia costuma ajudar mais do que vigiar.
A ciência dá respaldo a esse caminho. Em um estudo com 101 pessoas com transtorno bipolar, as que receberam terapia focada na família, junto com o tratamento medicamentoso, tiveram menos recaídas em dois anos (35%, contra 54% no grupo que recebeu só o acompanhamento habitual) e mais adesão aos medicamentos. (Miklowitz et al., 2003; ensaio clínico randomizado)
Com adolescentes, um estudo com 58 jovens com transtorno bipolar mostrou que a terapia focada na família, junto com o tratamento medicamentoso, ajudou os sintomas depressivos a melhorarem mais rápido e reduziu o tempo passado em depressão ao longo de dois anos. Não houve diferença no tempo até um novo episódio. (Miklowitz et al., 2008; ensaio clínico randomizado)
E em uma crise?
Durante um episódio, especialmente quando há agitação ou irritabilidade intensa, o objetivo muda: deixa de ser convencer e passa a ser proteger.
- Evite confrontos. Discutir no momento mais intenso costuma aumentar a tensão. A conversa sobre o que aconteceu pode ficar para depois.
- Priorize a segurança. De quem está em crise e de quem está por perto.
- Acione a equipe que acompanha o seu filho, seguindo o que foi combinado no plano.
- Se houver risco imediato, procure atendimento de urgência: SAMU, 192. Em sofrimento emocional, o CVV atende pelo 188, 24 horas por dia.
Quem cuida também precisa de cuidado
Acompanhar um filho com transtorno bipolar pode ser exaustivo. Muitos pais deixam as próprias necessidades em segundo plano e sentem culpa quando precisam descansar.
Cuidar de si não é egoísmo: é o que permite continuar cuidando. Em um estudo com familiares de pessoas com transtorno bipolar estabilizadas, a psicoeducação para cuidadores aumentou o conhecimento sobre o transtorno e reduziu a sobrecarga sentida por eles. (Reinares et al., 2004; estudo preliminar)
A psicoterapia para familiares pode ser um espaço para falar do medo, do cansaço e da culpa, e para pensar em formas de apoiar sem se anular. Não é preciso que o filho participe das sessões para que você busque esse cuidado.
Psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico: cada um no seu lugar
O diagnóstico e a conduta medicamentosa são definidos pelo psiquiatra, caso a caso. A psicoterapia caminha junto: ajuda a compreender o transtorno, a reconhecer sinais, a organizar a rotina e a cuidar das relações. A família, quando bem orientada, é parte importante desse cuidado, mas não substitui o tratamento.
Perguntas frequentes
Como ajudar um filho com transtorno bipolar?
Conversando nos períodos de estabilidade, combinando um plano com a equipe que o acompanha, apoiando a continuidade do tratamento e cuidando também da própria saúde emocional.
O que fazer quando meu filho está em crise?
Evitar confrontos, priorizar a segurança e acionar a equipe que acompanha o caso. Em risco imediato, procure atendimento de urgência pelo SAMU, 192.
Os pais também podem fazer psicoterapia?
Sim. O atendimento psicológico para familiares é um espaço para cuidar de quem cuida, mesmo que o filho não participe.
Conteúdo educativo. Não substitui uma avaliação individualizada.
Referências
- Miklowitz DJ, George EL, Richards JA, Simoneau TL, Suddath RL. A randomized study of family-focused psychoeducation and pharmacotherapy in the outpatient management of bipolar disorder. Arch Gen Psychiatry. 2003;60(9):904-912. doi:10.1001/archpsyc.60.9.904
- Miklowitz DJ, Axelson DA, Birmaher B, et al. Family-focused treatment for adolescents with bipolar disorder: results of a 2-year randomized trial. Arch Gen Psychiatry. 2008;65(9):1053-1061. doi:10.1001/archpsyc.65.9.1053
- Reinares M, Vieta E, Colom F, et al. Impact of a psychoeducational family intervention on caregivers of stabilized bipolar patients. Psychother Psychosom. 2004;73(5):312-319. doi:10.1159/000078848
Sobre a autora
Sâmara Gomes é psicóloga clínica (CRP 22/000695), com 18 anos de experiência clínica. Atende em psicoterapia on-line e presencialmente em Bacabal (MA), com foco no transtorno afetivo bipolar, além de ansiedade e depressão.