Sono no transtorno bipolar: por que o horário importa tanto quanto as horas
Sâmara Gomes
No transtorno bipolar, cuidar do sono não é só dormir o suficiente. Importa também em que horário a pessoa dorme e acorda, e se esse horário se mantém parecido ao longo dos dias. Além disso, mudanças no sono costumam estar entre os primeiros sinais de que o humor pode estar mudando.
O corpo tem um relógio
O nosso corpo funciona em ciclos de cerca de 24 horas. Esse relógio biológico organiza o sono, a energia, a atenção e até o apetite ao longo do dia.
De forma simples:
- Manhã: a luz avisa o corpo que o dia começou. A energia e a atenção sobem.
- Tarde: as atividades e a luz mantêm o corpo alerta.
- Noite: com menos luz, o corpo começa a se preparar para dormir.
- Madrugada: o corpo descansa e se recupera.
A luz da manhã, os horários das refeições e o horário de começar o dia funcionam como pistas que mantêm esse relógio acertado.
Dormir 8 horas não basta
Imagine duas pessoas que dormem 8 horas por noite. Uma dorme sempre por volta das 23h. A outra dorme às 22h em alguns dias e às 4h da manhã em outros. As horas são as mesmas, mas o ritmo é muito diferente.
No transtorno bipolar, mudanças bruscas no ritmo podem deixar o humor mais vulnerável. Isso não quer dizer que toda noite irregular cause uma crise, nem que toda crise comece pelo sono. Quer dizer que a regularidade funciona como uma proteção.
O sono como sinal precoce
Mudanças no sono costumam aparecer entre os primeiros sinais antes de um episódio de humor. Em um estudo que reuniu pesquisas sobre os sinais que antecedem os episódios, a alteração do sono foi o sinal mais frequente antes da mania e um dos mais comuns antes da depressão (Jackson e colaboradores, 2003).
Os padrões costumam ser diferentes:
- Antes ou durante a hipomania e a mania: a pessoa passa a dormir bem menos e, mesmo assim, acorda com muita energia. Por isso, muitas vezes isso parece uma fase boa, e não um sinal.
- Na depressão: pode haver mais tempo na cama, dificuldade para levantar e cansaço que não passa.
Um cuidado importante: uma noite mal dormida, sozinha, não significa nada. O que merece atenção é a mudança em relação ao jeito habitual da pessoa, junto com outros sinais e por alguns dias.
O que a pesquisa mostra sobre a rotina
A Terapia Interpessoal e de Ritmos Sociais, desenvolvida pela pesquisadora Ellen Frank, trabalha justamente a regularidade da rotina: horários de dormir, acordar, comer e começar o dia. Em um estudo, tornar a rotina mais regular durante a psicoterapia se associou a menos recaídas (Frank e colaboradores, 2005).
As diretrizes internacionais para o tratamento do transtorno bipolar incluem a psicoeducação e as intervenções psicológicas entre os recursos do cuidado, junto com o tratamento conduzido pelo psiquiatra (Yatham e colaboradores, 2018).
Como a psicoterapia pode ajudar
Na psicoterapia, é possível:
- conhecer o próprio padrão de sono nos períodos de estabilidade;
- identificar quais mudanças vieram antes de episódios anteriores;
- perceber como situações de estresse bagunçam a rotina;
- diferenciar insônia, diminuição da necessidade de sono e excesso de sono;
- construir, junto com quem acompanha o tratamento, um plano para agir cedo.
O objetivo não é viver com rigidez nem vigiar cada noite. É ter horários parecidos para dormir, acordar e começar o dia, e saber o que observar.
Decisões sobre medicação, inclusive para o sono, são sempre do psiquiatra, caso a caso.
Para quem convive
Observar o sono de alguém que você ama não é vigiar. Quando combinado antes, na fase de estabilidade, esse olhar pode ajudar a perceber mudanças cedo. Converse com a pessoa e com a equipe que a acompanha sobre o que observar e o que fazer.
Em resumo
No transtorno bipolar, cuidar do sono é também cuidar do ritmo. Horários parecidos protegem o humor, e mudanças no sono podem ser um sinal precoce que vale conhecer.
Se você quer entender melhor o seu ritmo, ou o de alguém que você ama, a psicoterapia pode ser um espaço para isso.
Conteúdo educativo. Não substitui uma avaliação individualizada.
Sâmara Gomes | Psicóloga Clínica | CRP 22/000695
Referências
- Frank E, Kupfer DJ, Thase ME, et al. Two-year outcomes for interpersonal and social rhythm therapy in individuals with bipolar I disorder. Archives of General Psychiatry, 2005.
- Jackson A, Cavanagh J, Scott J. A systematic review of manic and depressive prodromes. Journal of Affective Disorders, 2003.
- Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disorders, 2018.